
Manaus (AM) ─ A Polícia Civil do Amazonas deflagrou, na manhã desta sexta-feira (20/02), a Operação Erga Omnes, resultado de uma investigação de quatro meses focada no combate à lavagem de dinheiro e ao tráfico de drogas. O foco central da ação é uma sofisticada rede criminosa com “tentáculos” infiltrados na administração pública, onde servidores colaboravam diretamente com o crime organizado em troca de vultuosas quantias financeiras.
Coordenada pelo delegado do 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP), Marcelo Martins, a investigação revelou que servidores públicos das esferas municipal e estadual — com cargos em setores estratégicos dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário — atuavam como facilitadores.
De acordo com as investigações, eles forneciam suporte logístico e vazavam informações sigilosas para a organização. O monitoramento do Coaf identificou que, em uma janela de quatro anos, o grupo movimentou mais de R$ 70 milhões.
Em Manaus, o principal alvo da ação foi a investigadora da Polícia Civil, ex-diretora da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), e que atualmente integrava a Comissão Geral de Licitação do Município, Anabela Cardoso de Freitas.
Também foi preso o motorista do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), Izaldir Moreno Bentes, que atuava como mediador de informações privilegiadas do Judiciário ao grupo criminoso.
A operação identificou que as drogas eram adquiridas em Tabatinga (município distante 1.050 quilômetros de Manaus), a principal rota do tráfico de drogas até a capital amazonense, e enviadas para outros estados através de operadores no Amazonas e no Pará. A operação estende-se por seis outros estados: Pará, Piauí, Ceará, Maranhão, Minas Gerais e São Paulo.
Igrejas como “esconderijo social” ─ Um detalhe alarmante da investigação aponta que líderes do esquema utilizavam o prestígio social de instituições religiosas para ocultar atividades ilícitas.
O líder da organização e principal alvo, Allan Kleber, frequentava uma igreja evangélica no bairro Zumbi dos Palmares, onde já chegou a esconder entorpecentes dentro do templo. Outro alvo, também líder religioso, usava a posição para evitar a identificação policial.
Até as 9h30 desta quinta-feira, foram cumpridos 13 mandados de prisão (7 no Amazonas e 6 em outros estados) de um total de 24 expedidos pela Justiça. Entre as medidas adotadas estão:
- Bloqueio de contas bancárias e sequestro de valores;
- Apreensão de veículos de luxo;
- Interdição de empresas de fachada que mantinham negócios com traficantes e servidores.
O líder Allan Kleber conseguiu fugir por volta das 3h da manhã, após receber informações privilegiadas sobre a deflagração da operação. O delegado Marcelo Martins contou que o vazamento da ação policial já está sob investigação.
No entanto, sua esposa foi detida em São Paulo. Em mensagens interceptadas, Kleber vangloriava-se de possuir informantes em “todos os órgãos de todas as esferas” e afirmava não temer a prisão por “pagar todo mundo”.
O “câncer” da narcopolítica ─ O núcleo político desmantelado é composto por ex-assessores do Legislativo e servidores ativos da prefeitura e do Judiciário estadual. O delegado reforçou que não há políticos com mandato sendo investigados neste momento, mas alertou para a gravidade da situação.
─ A presença de agentes públicos no crime organizado é um sintoma muito grave, um câncer social. Países como o México começaram assim, onde o crime se tornou a própria administração. Não podemos deixar isso acontecer no Amazonas, ou seremos governados por criminosos -, pontuou o delegado.
Veja o vídeo:
Da Redação







