
Por Lúcio Carril*
Manaus (AM) ─ O que leva um homem a sentir o desejo de enforcar uma mulher que não lhe oferece qualquer perigo? Seria esse desejo macabro um sinal de psicopatia?
Não sou psicólogo nem psiquiatra, mas a sociologia me permite fazer uma imersão na história para tentar entender o comportamento violento do indivíduo na sociedade, fundamentalmente aquela conduta desagregadora e sem empatia.
Na antiguidade, indivíduos com condutas agressivas e profanas eram considerados possuídos pelo demônio. Assim, sua cura poderia ser alcançada pelo exorcismo. Foi a partir do século XIX que estudiosos da medicina passaram a entender a crueldade não como loucura, mas como perturbação mental caracterizada por padrões comportamentais e afetivos.
Feita essa contextualização científica, não me permito entrar no campo da psiquiatria. Passo a tratar da visão sociológica sobre a violência ou o desejo revelado de esganar um opositor político.
O senador Plínio Valério não se tornou um facínora de uma hora pra outra. Ele tem lastro. Primeiro, é filho da oligarquia latifundiária do Alto Juruá, no Amazonas, aquele segmento social e econômico que construiu seu poder oprimindo o caboclo, tomando suas terras e sugando seu sangue. Ele cresceu nesse ambiente de violência.
Já crescido, foi da juventude da ARENA, partido de sustentação da ditadura militar. Ou seja, Plínio nunca defendeu a democracia e foi um agente do autoritarismo.
Em tempos recentes, foi eleito senador, na onda fascista que tomou conta do Brasil por quatro anos e ainda resiste sob o manto de tudo que não presta. Viu na ascensão da extrema direita uma nova oportunidade de um Brasil mergulhado no obscurantismo. Novamente, abraçou esse projeto, porque tem uma história de vida impregnada pela violência.
Ter vontade de enforcar uma mulher negra, fisicamente frágil, defensora da natureza não se trata de um deslize do discurso, mas de uma conduta. Plínio apoiou a ditadura militar, logo apoiou a tortura, as prisões ilegais, os assassinatos cometidos pelo regime. Quando viu Bolsonaro defender o sádico Brilhante Ustra, se regozijou.
Em resumo, Plínio Valério não é um psicopata. Pode até mesmo apresentar alguns sintomas do transtorno, mas sua violência foi construída no ódio de classe, na opressão dos mais fracos, no desejo macabro de matar, enforcar, bater, humilhar. Ele, Bolsonaro e outros tantos são da mesma laia e representam uma ameaça permanente à civilização.
*Lúcio Carril é Sociólogo amazonense