
*Por Adilson Vieira
Manaus (AM) ─ Nos últimos meses, temos acompanhado uma onda de críticas contra a escolha da cidade de Belém do Pará como sede da 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, a COP30.
As vozes mais estridentes partem, curiosamente, de setores que se autodeclaram progressistas, muitos deles baseados em centros urbanos do Sudeste, como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.
Entre as críticas, destacam-se a suposta falta de estrutura da cidade, a ideia de que será uma “COP do luxo” por conta dos investimentos públicos, a alegada ausência de hospedagem adequada e a dificuldade de acesso para participantes das delegações.
É necessário, contudo, olhar para essas críticas com atenção e honestidade. Sim, reconhecemos que Belém — assim como outras capitais do Norte — enfrenta déficits estruturais. Mas isso não é culpa da cidade, nem de sua população.
É o resultado direto de um modelo de desenvolvimento historicamente excludente, que concentrou investimentos, infraestrutura e oportunidades no Sul e Sudeste, enquanto marginalizava o Norte.
Apontar essas dificuldades sem reconhecer essa raiz histórica é reforçar o estigma e a desigualdade sem reconhecer a raiz do problema.
O mais grave é que esse olhar vem sendo reproduzido até por setores que afirmam combater o sistema capitalista e suas formas de opressão. Será que é mesmo a estrutura de Belém que está em questão? Ou será que estamos diante de um preconceito estrutural que se manifesta mesmo nos discursos mais aparentemente “progressistas”?
Como nos lembra Pierre Bourdieu, “a violência simbólica é exercida com a cumplicidade daqueles que a sofrem e daqueles que a exercem” — e muitas vezes essa cumplicidade é tão naturalizada que passa despercebida.
A escolha de Belém como sede da COP não é apenas geográfica: é simbólica, política e histórica. É a chance de colocar a Amazônia no centro das decisões climáticas, não como paisagem exótica ou como recurso natural, mas como território vivo, habitado, que produz conhecimento, resistência e alternativas.
Também é hora de lembrar que a COP não é, ou não deveria ser, um festival de visibilidade política ou uma nova versão de Woodstock. O que se tornou a norma em edições anteriores é uma verdadeira distorção: conferências com mais de 50 mil pessoas, das quais boa parte são lobistas das indústrias que travam o avanço das negociações climáticas, como as petroleiras.
É no mínimo contraditório que se critique a limitação de estrutura de Belém enquanto se normaliza a ocupação massiva dessas conferências por interesses econômicos que sabotam as soluções que a própria COP deveria promover. Como naturalizamos esse absurdo?
Vale lembrar que as edições anteriores da COP também enfrentaram desafios semelhantes. No Egito e em Baku, os movimentos sociais relataram dificuldades graves de hospedagem, transporte e organização. Em Baku, inclusive, houve casos concretos de expulsão de representantes de movimentos sociais de hotéis, para que se alojassem outros grupos, mesmo com hospedagens previamente pagas.
Esses problemas são recorrentes em conferências desse porte. Não são exclusividade de Belém. Por que, então, tamanha indignação seletiva com a cidade amazônica? Por que se toleram falhas em países do Oriente Médio ou do Leste Europeu, mas se condena previamente uma cidade brasileira, do Norte, com argumentos muitas vezes carregados de preconceito e desinformação?
É hora de os setores progressistas olharem no espelho e se perguntarem: ao criticar Belém dessa forma, não estariam reforçando estereótipos coloniais, racistas e elitistas contra o Norte do Brasil? Não estariam reproduzindo, na prática, as mesmas exclusões que dizem combater? Como diz o Sociólogo, “não há justiça social global sem justiça cognitiva global”.
E isso começa por reconhecer os saberes e territórios que foram sistematicamente marginalizados. A Amazônia não precisa de condescendência — precisa de respeito, escuta e reconhecimento. A COP em Belém é um marco, não um erro. E cabe aos movimentos sociais de todo o país a responsabilidade de romper com os preconceitos históricos que ainda insistem em nos dividir.
*Adilson Vieira é Sociólogo e membro do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Amazônico (IPDA) e da Rede de Trabalho Amazônico (GTA).