Gasolina a R$ 13 expõe drama de comunidades rurais na Transamazônica às vésperas da COP30

Combustíveis são vendidos de forma clandestina, em pets, em locais insalubres escancarando a crise climática na localidade ─ FOTO: Reprodução

 

 

Santo Antônio do Matupi (AM) – A vida no isolado distrito de Santo Antônio do Matupi, em Manicoré, a mais de 800 quilômetros de Manaus, atingiu um ponto de desespero. Um severo desabastecimento de combustíveis, consequência direta da interdição da vital BR-230 (Transamazônica) devido às históricas cheias, mergulhou a comunidade em um profundo drama humanitário, com famílias lutando diariamente pela sobrevivência.

 

A crise, agravada pelos impactos das mudanças climáticas, vai além da falta de combustível, atingindo também o fornecimento de energia elétrica, agora racionada pela dificuldade no transporte de óleo diesel, essencial para as termelétricas locais.

 

Enquanto o planeta se prepara para debater o futuro do clima na COP30, a conferência global que reunirá líderes mundiais em Belém, a realidade brutal e alarmante no coração da Amazônia se manifesta de forma ultrajante: o preço da gasolina atinge o escárnio de R$ 13 por litro. Esse valor, o dobro do praticado em outras cidades amazonenses, expõe a vulnerabilidade da região aos eventos climáticos extremos.

 

Essa cifra inacreditável, imposta em vendas clandestinas diante da escassez nos postos, ilustra o desespero de uma população ilhada pela obstrução da principal via de acesso e a exploração sem limites em meio à crise. A interrupção do fornecimento regular de óleo diesel, também causada pelas cheias, impõe o racionamento de energia elétrica, afetando ainda mais o cotidiano já fragilizado da comunidade.

 

O custo proibitivo do combustível não apenas paralisa a rotina, impedindo o deslocamento para o trabalho, mas também dificulta o acesso a serviços essenciais, como a saúde, intensificando o impacto humanitário da crise e expondo a crueldade da especulação. A escassez de energia elétrica, essencial para conservação de alimentos, comunicação e bem-estar básico, soma-se ao quadro de calamidade.

 

A raiz desta tragédia reside na cheia histórica do rio Madeira, que isolou Manicoré, a cerca de 437 quilômetros de Manaus. A elevação sem precedentes do nível das águas, um prenúncio sombrio da intensificação dos eventos climáticos extremos, tornou a BR-230 intransitável, estrangulando a logística regional e escancarando a vulnerabilidade da Amazônia ─ a mesma vulnerabilidade que demandará soluções urgentes e ambiciosas na COP30, em Belém.

 

A dependência de combustíveis fósseis para energia elétrica agrava a situação em um cenário de crise climática. Santo Antônio do Matupi, um importante polo de produção rural do Amazonas, agoniza com a economia paralisada pela falta de combustível, insumo vital para o agronegócio que sustenta inúmeras famílias.

 

A extorsão no preço da gasolina agrava ainda mais a agonia econômica local, assim como a instabilidade no fornecimento de energia elétrica prejudica a produção e o armazenamento de alimentos.

 

A impossibilidade de escoar a produção e de manter as atividades da pecuária e da agricultura lança uma sombra sobre a segurança alimentar e a estabilidade econômica local, um cenário dramático que clama por ações concretas e que certamente ecoará nos debates da COP30, com o preço abusivo da gasolina e o racionamento de energia como símbolos da exploração e da fragilidade em tempos de crise climática.

 

O impacto humanitário da crise na Transamazônica se alastra por comunidades vizinhas como Alta Floresta, Carlinda, Nova Canaã do Norte, Colíder e Nova Santa Helena, afetando mais de 150 mil famílias, isoladas e desabastecidas.

 

Essa crise, potencializada por uma cheia histórica, é um doloroso e urgente lembrete da necessidade de mitigar os impactos das profundas mudanças climáticas que afligem a Amazônia, tema central da vindoura COP30 em Belém. A cobrança indecente de R$ 13 pelo litro da gasolina e o racionamento de energia são sintomas gritantes dessa urgência.

 

A esperança dessas comunidades reside na possibilidade de que as discussões e decisões tomadas nesse encontro global se traduzam em políticas e investimentos efetivos para fortalecer sua resiliência e proteger o futuro da floresta e de seu povo, evitando que o preço ultrajante da gasolina e a falta de energia sejam apenas mais capítulos de um sofrimento evitável, intensificado pelas mudanças do clima.

 

Da Redação

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